Rede de proteção à mulher em Juiz de Fora tem avanços, mas ainda carece de estrutura

Artista, Fernanda Lumen, é resistência ao cinza do concreto e à violência doméstica (Foto: Leonardo Costa)

Entre conquistas e lacunas, cidade busca fortalecer políticas públicas diante do aumento de denúncias de agressões

Na região central da cidade, o mural que cobre a fachada do prédio da Prefeitura de Juiz de Fora (PJF), é visto à distância. A pintura nasceu de um projeto feito a muitas mãos, entre elas, as de Fernanda Lumen: graffiteira, mãe de duas meninas, artista, idealizadora do primeiro encontro de graffiti de mulheres na cidade e sobrevivente de violência doméstica. Enquanto o projeto avançava na Avenida Brasil, a casa de Fernanda era posta abaixo pelo seu então companheiro – algo que quase ninguém sabia ou via. O barulho chamou a atenção de vizinhos, que ligaram para a Polícia Militar. Em 2023, ano do episódio, o 190 tocaria mais de 60 mil vezes em todo o estado para denunciar casos de violência doméstica. No ano seguinte, o número mais que dobrou: foram 125 mil, o equivalente a 344 ligações por dia, somente em Minas Gerais. Já no país, a conta fechou em duas chamadas por minuto, somando mais de um milhão de registros em 2024, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública.

Esses números evidenciam que a violência contra a mulher não é um fenômeno isolado, mas um padrão marcado por recortes de gênero e também de raça. O mesmo levantamento mostra que o feminicídio atinge majoritariamente mulheres negras (63,6%), jovens de 18 a 44 anos (70,5%), mortas dentro de casa (64,3%) por companheiros ou ex-companheiros (79,8%). Em grande parte dos casos, os agressores utilizam arma branca (48,4%) ou arma de fogo (23,6%).

O estudo, no entanto, não detalha quantas dessas chamadas se transformaram, de fato, em ocorrência. No caso de Fernanda, não repercutiu. Ela fala da dificuldade de denunciar: há a tendência de se culpar, a demora em reconhecer que violência doméstica não se limita a hematomas, e os impasses que se multiplicam quando há crianças envolvidas. O fim do relacionamento aconteceu em 2023, Fernanda, porém, passou a receber ligações e mensagens incômodas e foi por meio de uma conversa com outras amigas que ela foi aconselhada a procurar a Casa da Mulher, localizada na Avenida Garibalde Campinhos 169, no Bairro Vitorino Braga. 

A última matéria da série “Olhares Contra a Violência” chega na esteira da campanha Agosto Lilás, mês de enfrentamento à violência doméstica, e relembra o óbvio: violência contra a mulher é crime. Nesse período, políticas públicas ganham destaque e tentam conter as brechas já deixadas pelo sistema.  É nesse cenário que se ergue o relato de uma mulher que, apesar do medo, decide contar sua história. Não é exceção, tampouco raridade: sua voz reverbera nas de tantas outras, abafadas pelo silêncio. Ao falar, Fernanda acende, em outras, a centelha do possível.

Arte como aliada

“A arte, desde quando eu comecei, estave ligada ao que eu vivia no momento. Sempre tentei trazer coisas que eu estudava e fazia naquele momento. Depois do que eu passei, isso influencia muito nas minhas pesquisas, nas minhas buscas por trazer, de forma imagética, essas ideias”explica Fernanda, que tem como marca no seu trabalho as cores vívidas e a imagem de uma onça. “É um animal que remete à força, protetor das crias, dos filhotes. As onças que estão grávidas são protegidas por outras e isso tem tudo a ver com o que aconteceu. As mulheres, no momento em que eu precisei, foram as que mais se solidarizaram, as que mais me ajudaram e tiveram que me proteger. Então, eu trago essa simbologia”, diz a artista, que à época grávida e com um filha pequena, passou por violência psicológica.

“Quanto mais independentes financeiramente formos, e quanto mais a tivermos uma rede com outras mulheres, conseguiremos levantar e caminhar novamente. Não acho que eu passei pela coisa mais complicada. Tem mulheres que passam por situações piores, mas o simples fato de sofrer uma violência de quem confiamos por tantos anos, traumatiza demais. De todo modo, é se apegar à nossa força, ao que podemos construir para o mundo, não cair na armadilha de pensar que a gente merece a situação de violência doméstica”, complementa Fernanda, que tece um diálogo com outras mulheres, objetivando que assim como ela, as demais sigam e consigam construir uma jornada mais justa.

Casa da Mulher: equipamento é aliado no enfrentamento à violência doméstica

Quando chegou à Casa da Mulher, Fernanda conversou com uma psicóloga. Foi ao longo desse processo, conforme conta, que compreendeu estar mergulhada em um cotidiano de terror. Percebeu, então, que a violência não se limita às agressões físicas: também se instala, silenciosa, no plano psicológico. O espaço acolhe mulheres em diferentes situações de vulnerabilidade, incluindo vítimas de violência sexual, patrimonial e moral. No local, após o primeiro atendimento, cada caso passa a ser acompanhado de forma individual e multidisciplinar, oferecendo serviços necessários para a demanda de cada mulher. Ao longo de 2024, cerca de mil mulheres foram atendidas na instituição, seja por demanda espontânea, como Fernanda, ou encaminhadas pela Polícia Militar, Polícia Civil, Ministério Público e Poder Judiciário, serviços de saúde e assistência social, Conselho Tutelar, entre outros órgãos. 

Em 2025, até o início de agosto, aproximadamente 570 atendimentos já foram realizados na Casa da Mulher, número que segundo a Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) tende a crescer após o 1º Mutirão de Regulamentação de Pensão Alimentícia e Guarda de Filhos, realizado na cidade na semana passada. Em geral, as mulheres que vão até o local, inclusive aquelas em medidas protetivas, recebem atendimento social e psicológico, orientação jurídica especializada, encaminhamento para serviços de saúde, habitação e empregabilidade, atividades de prevenção, capacitação e fortalecimento da autonomia das mulheres e  oficinas de arte-terapia, costura, ginástica, yoga e outras atividades de bem-estar e capacitação profissional.

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