Juiz de Fora tem mais de dez casos de violência contra a mulher por dia em 2026

Enquanto a violência doméstica segue em níveis persistentes, mulheres transformam o luto em redes de apoio

Após ver a vizinha de 26 anos, criada no quintal de casa, entre seus próprios filhos, ser vítima de feminicídio e deixar órfãs três meninas – uma de sete anos, outra de quatro e uma recém-nascida de apenas dois meses – , Angelina Pinheiro organizou o luto como um protesto. Ela criou a comunidade Mulheres Unidas contra a Violência (Muv), que oferece acolhimento, rodas de conversa e auxílio jurídico a vítimas e familiares de diferentes cidades da Zona da Mata.

 

Juiz de Fora, polo da região, reflete a realidade que Angelina tenta, todos os dias, combater. Na cidade, mais de dez ocorrências de violência doméstica e familiar contra a mulher são registradas por dia, isto é, ações ou omissões baseadas no gênero, ocorridas em casa, na família ou em relações íntimas de afeto, que causem morte, lesão, sofrimento físico, sexual, psicológico ou dano moral/patrimonial. Nos dois primeiros meses de 2026, foram registrados 626 casos, um número que, apesar de alto, ainda é menor ante os anos anteriores. No mesmo período de 2025, foram 711 registros, com média diária de aproximadamente 12 casos. Já em 2024, foram 797 ocorrências, o equivalente a cerca de 13 por dia, conforme dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp).

Sobre os dados levantados pela reportagem, a pasta de segurança do estado informou que as informações têm como base a Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) e que o detalhamento deve ser solicitado ao órgão. Procurada, a PCMG afirmou que não comenta dados estatísticos. Mas, para a advogada Leidiane Salvador, a “baixa” registrada entre os anos exigem cautela na compreensão dos dados. Isso porque, conforme defende, eles não refletem a realidade de fato frente a subnotificações. “Os números reais, que não integram as estatísticas, são ainda maiores.” Diferente de Juiz de Fora, que tem população estimada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 567.730 pessoas, em cidades de menor porte a frequência deste tipo de criminalidades se mantém – ainda que com menor índice. Em Cataguases, por exemplo, que é a cidade onde o projeto de Angelina teve início e onde ocorreu o crime, a média bimestral dos registros nos últimos anos mostra uma constância persistente da violência contra a mulher. A cidade, a menos de 120 quilômetros de Juiz de Fora e com população estimada de quase 68 mil pessoas, tem cenário em que pelo menos um caso de registro de violência doméstica ou familiar contra a mulher foi registrado por dia no primeiro bimestre dos últimos três anos. 

O Governo de Minas informou que promove diversas políticas de combate e prevenção à violência contra a mulher e de enfrentamento ao feminicídio em todo o estado, com foco na construção de uma rede coordenada que integra tecnologia, policiamento especializado e planejamento institucional. O eixo central dessa estratégia é articular prevenção, resposta rápida e acompanhamento contínuo, combinando o monitoramento de agressores para evitar reincidências, o atendimento imediato da RpPM, o acesso ágil e discreto ao socorro pelo Emergência MG e a organização dessas ações por meio do Plano de Metas e do Protocolo Fale Agora.

Misoginia e falhas estruturais ampliam obstáculos no enfrentamento à violência contra a mulher

Leidiane Salvador destaca que a misoginia crescente representada principalmente pelo movimento ‘redpill’ (que prega a masculinidade dominante) ajuda a entender o alto número dos registros. “Enquanto o movimento feminista vem discutindo e argumentando que o controle sobre os corpos das mulheres representa graves violências e violações de direitos humanos, o machismo e o patriarcado continuam reproduzindo discursos de submissão e ódio às mulheres, naturalizando as práticas violentas”, explica, sobre essa onda que tem ganhado cada vez mais espaço na internet.

 
 
 

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