
Casos cresceram no primeiro trimestre de 2026; doença é transmitida principalmente por via fecal-oral e preocupa especialistas, que destacam sintomas, saneamento e formas de prevenção
Juiz de Fora registrou 615 casos confirmados de hepatite A entre janeiro e março de 2026, segundo dados da Secretaria de Saúde da Prefeitura de Juiz de Fora (PJF). Os números mostram que o avanço da doença se intensificou ao longo do trimestre: foram 58 ocorrências em janeiro, 141 em fevereiro – mês em que a Tribuna já havia mostrado a escalada dos registros – e 416 em março, o maior número do período. Em três meses, o município já soma pouco mais de 17 vezes o total contabilizado em todo o ano passado, quando houve 36 casos entre janeiro e dezembro.
Segundo a PJF, o crescimento do volume de ocorrências segue as tendências de aumento de casos em todo o país e é acompanhado de forma permanente pelas equipes de vigilância e assistência em saúde do município. Na avaliação de especialistas, porém, o cenário local também pode estar associado a fatores que ajudam a explicar essa alta, como as chuvas intensas e os alagamentos registrados na cidade, que aumentam o risco de contato com água contaminada, além de problemas de saneamento e da baixa cobertura vacinal contra a doença.
A Subsecretaria de Vigilância em Saúde informou que trabalha neste momento no monitoramento dos casos e na adoção de medidas de contenção, como testagem, inspeções sanitárias e acompanhamento dos pacientes. A aposta do município é que o reforço da vacinação e das medidas preventivas contribua para reduzir o número de ocorrências nos próximos meses.
Segundo o Ministério da Saúde, a hepatite A é uma infecção causada por vírus e transmitida principalmente pela via fecal-oral, em situações de contato com água ou alimentos contaminados, falta de saneamento e higiene inadequada. O ministério também alerta que o vírus pode se espalhar em práticas sexuais com possibilidade de contato fecal-oral.
Entre as hepatites virais, as mais comuns no Brasil são as dos tipos A, B e C, enquanto a D tem maior ocorrência na região Norte e a E é menos frequente no país. Em Juiz de Fora, o aumento verificado até aqui está concentrado justamente na hepatite A, forma mais ligada à contaminação fecal-oral e à exposição à água e alimentos contaminados.
Casos em Juiz de Fora acendem alerta para sintomas
Em meio ao avanço dos casos de hepatite A em Juiz de Fora, relatos de pacientes ajudam a dimensionar como a doença pode se manifestar de forma pouco específica nos primeiros dias, o que pode dificultar a identificação imediata do quadro. Em comum, os dois casos ouvidos pela reportagem começaram com sinais semelhantes aos de outras viroses, especialmente dengue, e só depois evoluíram para manifestações mais características de comprometimento hepático.
A programadora Maria Fernanda Tavares, 25, não teve contato direto com a água da enchente e, por isso, não suspeitou logo que poderia estar com a doença. “De início, me senti muito cansada e indisposta. Também estava com uma febre que não era muito alta. Quando fui à médica, ela achou que poderia ser dengue, e fiz exames para verificar isso”, conta. Os primeiros sintomas apareceram em 14 de março, mas o quadro se agravou cerca de cinco dias depois, quando o mal-estar, a diarreia e o enjoo se intensificaram, além da mudança na coloração da pele. “Não conseguia me alimentar e nem beber água. Fiquei de domingo até quarta internada, até que meus exames começaram a melhorar”, relata.
O representante hospitalar Marcelo Alves, 36, viveu situação semelhante. Entre 7 e 13 de fevereiro, percebeu a evolução dos sintomas, que também começaram de forma inespecífica. “Inicialmente, o quadro se assemelhava ao da dengue, com dores no corpo e dor atrás dos olhos. Nos dias seguintes, surgiram outros sinais, como perda de apetite, fezes de coloração clara, urina escura (semelhante à cor de chá-mate), além de episódios de vômito após a ingestão de alimentos gordurosos. Também apresentei sudorese intensa, acompanhada de coceira nas áreas onde havia transpiração”, relembra. O diagnóstico foi confirmado após procurar atendimento médico e realizar exame de sangue, que apontou alterações nos níveis de TGO, TGP e bilirrubina compatíveis com um quadro hepático. Ele também precisou ser internado para receber hidratação intravenosa.
Os dois relatos ajudam a explicar por que o diagnóstico da hepatite A pode não ser imediato. Segundo a médica hepatologista Juliana Ferreira, os sintomas iniciais costumam surgir sem definição clara, com cansaço, mal-estar, febre, dores no corpo, náuseas, vômitos, dor abdominal e diarreia. “Depois, podem surgir sinais mais típicos, como urina escura, pele e olhos amarelados, que é a icterícia. Ao apresentar esses sintomas, a orientação é procurar atendimento médico, de preferência sem demora, para avaliação clínica e solicitação dos exames adequados”, recomenda.
A especialista destaca que a atenção deve ser ainda maior em adultos, idosos e pessoas com doença hepática prévia, já que a evolução pode ser mais grave nesses grupos. Ela também alerta que a automedicação deve ser evitada, especialmente com remédios que possam sobrecarregar ainda mais o fígado.
Embora a alta dos casos de hepatite A em Juiz de Fora esteja associada a diferentes fatores, especialistas apontam que o cenário vivido pela cidade nas últimas semanas ajuda a entender parte desse avanço. Depois do aumento expressivo de registros no primeiro trimestre, a avaliação é que episódios de chuva intensa, alagamentos e exposição a água contaminada reforçam o alerta para um problema que também passa pelas condições de saneamento e higiene.
Fatores associados aos casos de hepatite A
A transmissão da doença ocorre de maneira fecal-oral e também por práticas sexuais com possibilidade de contato fecal-oral, e o contexto recente de Juiz de Fora pode ter colaborado para o aumento dos casos, ainda que não explique sozinho a situação. Embora o município tenha cerca de 96% de cobertura de água tratada e 99% de coleta de esgoto, ainda há situações que mantêm o risco de transmissão.
“Ainda existem pontos de atenção importantes, sobretudo em situações de enchente, transbordamento de esgoto, armazenamento inadequado de água, uso de água sem tratamento seguro e contaminação de alimentos. Ou seja, mesmo em cidades com boa cobertura formal, eventos climáticos e vulnerabilidades localizadas podem favorecer a transmissão”, destaca Juliana Ferreira. Atualmente, a região central da cidade concentra 189 casos da doença, o maior número entre as regiões do município, seguida pelas regiões Sul, com 120 casos; Leste, com 85; Norte, com 66; Sudeste, com 58; Oeste, com 56; e Nordeste, com 41.
Os impactos do saneamento inadequado, porém, não se restringem à hepatite A. Como destaca o infectologista Mário Novaes, todas as doenças relacionadas à água contaminada e à falta de higiene básica são afetadas. “Com essa situação de enchente, há ruptura dessa cadeia de saneamento. O tratamento da água fica comprometido, o desvio do dejeto fica comprometido, o desvio do lixo fica comprometido. E devido ao que ocorreu na cidade, não sabemos quando a restauração dessas coisas ocorrerá”, analisa.
Vacinação e formas de prevenção
Mário Novaes afirma que nos consultórios particulares da cidade tem sido observado um movimento crescente de adultos procurando a vacinação contra hepatite após verem pessoas próximas com a doença. Para o infectologista, esse movimento pode indicar uma percepção maior de risco diante do avanço dos casos, embora ainda seja difícil mensurar sua dimensão — e a vacinação segue como uma das principais medidas de prevenção. No momento, o sistema de saúde recomenda a vacinação para crianças entre 15 meses e 5 anos incompletos e adultos pertencentes a grupos de risco.
Além da vacinação, especialistas destacam que a prevenção contra a hepatite A também depende de cuidados cotidianos, sobretudo em um cenário de maior risco de contaminação por água e alimentos. Entre as principais orientações estão o consumo de água tratada, filtrada ou fervida e a higiene rigorosa das mãos, especialmente após usar o banheiro e antes de preparar alimentos.
Também é preciso observar cuidados especiais na lavagem de frutas e verduras e redobrar a atenção após contato com água de enchente ou lama. “Em caso de dúvida sobre a potabilidade da água, o uso correto de hipoclorito pode ser orientado pelos serviços de saúde. Também é importante evitar alimentos de procedência duvidosa e reforçar práticas sexuais seguras, porque essa também é uma via reconhecida de transmissão em alguns contextos”, reforça a hepatologista Juliana.
Em Juiz de Fora, a Prefeitura confirmou que a vacina contra a Hepatite A está disponível para crianças de 15 meses a menores de 5 anos não vacinadas, além de grupos específicos, como pessoas com doenças hepáticas, imunossuprimidas, em uso de PrEP e contatos domiciliares e sexuais de casos confirmados, não vacinados.
O imunizante é oferecido nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) de segunda a sexta, a partir das 9h, e aos sábados, das 8h às 11h, e de segunda à sexta, das 7h às 17h, no Serviço de Assistência Especializada (SAE), localizado no Centro de Vigilância em Saúde (Rua Antônio José Martins 92, no Morro da Glória).
- Tribuna de Minas





